Soneto concreto

Poesia concreta
bate na cabeça
abre uma brecha
sai ali tudo.
Dura sem metro
greta profunda
sem rima
entra o mundo.
Cimento e harmonia
buraco de mote
mão-dupla.
Argamassa mole
escorre e glosa
cérebro derretido.
BH, 7 de maio de 2013

Nevermore

Saudade, saudade, que queres de mim? Outona
Fazendo voar sabiás pelo ar à tona,
E o Sol lança dardos, raios de luz monótona
Atingem a copa das árvores, ele as destona.
Paul Verlaine

A sós, nós dois, e caminhávamos sonhando,
Ela e eu, cabelos e ideias sem comando,
Súbito, ela me vem, doce questionando:
“Qual teu mais belo dia? Ele foi quando?”

Sua voz doce e sonora, áureo timbre de anjo,
Demanda minha réplica, discreto arranjo,
E beijando sua mão branca, todo devoto:

— Ah! As primeiras flores, sempre mais cheirosas,
E murmuras, amor, o mesmo que eu te voto,
Primeiro sim de teus lábios com que me glosas.


Públio Athayde, dezembro de 2012.



Nevermore

Souvenir, souvenir, que me veux-tu? L'automne
Faisait voler la grive à travers l'air atone,
Et le soleil dardait un rayon monotone
Sur le bois jaunissant où la bise détone.

Nous étions seul à seule et marchions en rêvant,
Elle et moi, les cheveux et la pensée au vent.
Soudain, tournant vers moi son regard émouvant :
"Quel fut ton plus beau jour?" fit sa voix d'or vivant,

Sa voix douce et sonore, au frais timbre angélique.
Un sourire discret lui donna la réplique,
Et je baisai sa main blanche, dévotement.

— Ah! les premières fleurs, qu'elles sont parfumées !
Et qu'il bruit avec un murmure charmant
Le premier oui qui sort de lèvres bien-aimées !

[Verlaine, Paul (1844-1896) Nevermore, in:  Poèmes saturniens, in Mélancholia, no. 2, 1866.]

ALEXANDRINO

A tua mão sobre meus olhos, acordei,
A luz que vi era dia entre os dedos teus.
Cerradas pálpebras cobriam os camafeus
Que, cor-de-mel, fazem de mim fora-da-lei.
Toquei-te a palma com os lábios e gozei
Sonial carícia sobre a pele, Grego Deus!
Os laços grenhos pelos nossos himeneus,
Cada voluta memorando um de nós rei.
E tanto verso naquele enlevo de truz,
Beijei nos olhos, testa, lábios, em cruz,
Quantas falanges, hoste alegre, pude ver.
Mas nada mais marcou aquele alvorecer,
Que teu suspiro, olhar lançando que seduz.
Então que eu vi: minha vida é tua, oh Luz.
Belo Horizonte, 2 de outubro de 2000.

NOVO AMOR

Novo amor surgindo neste horizonte,
Mais uma esperança de ser feliz;
Novamente gira a roda matriz,
Sorte e fortuna que comigo conte.
Em tempo de férias eu faço verso,
Na hora de amar canto em ritmo a história,
Espero assim alcançar esta glória,
Que a chance é única em todo o universo.
Poema fácil, e que nada acrescenta,
Tal não seja o romance que começa
Pois nesta época, onde mais se tropeça
Em rima pobre, que já não se aguenta,
Como sonetos de métrica torta,
Amores falsos que ninguém suporta.
Belo Horizonte, 19 de junho de 1995.

ESGRIMA

De meias azuis, Públio Athayde
Que fúlgido enlevo consiste
Dois gládios às terças alternas
Sopesados viris em riste
Ou ciciantes no entre-pernas.
Cada estocada uma parada,
Os dois gumes enrubescidos
De tanto atrito e de pancada
Ambos têm os fios retorcidos.
A finta súbita diverge,
E como este mote sem glosa,
Mergulha completo e emerge
Quando crava a carne dolosa
E num laivo de dor asperge
O corpo de verve melosa.
Vitória, 3 de agosto de 1994.

ACRÓSTICO

Rafael Sanzio
Raramente fui tão feliz!
sou eu quem te diz:
Agora quero ser constante,
doce meu infante,
Perene como sempre quis,
ter sempre outro bis,
Hoje, sempre, cada instante,
junto a meu amante.
Agora, que verso já fiz,
declaro que condiz,
Em todo, contigo, rompante,
meu vate estreante.
Lego-te a musa por um triz,
meu doce galante!
Belo Horizonte, 29 de dezembro de 2003!

PADRE NOSSO




Padre nosso, que tu estás no céu,
Toda vontade seja feita tua
Sobre meu corpo frágil e alma nua,
Assim és meu juiz, eu sou teu réu.
Padre nosso, que estou vagando ao léu,
Cuja vontade sempre se cultua
Eu só tenho desejo, estou na rua,
Cálice teu perdão contendo fel.
Padre nosso, que eterno sempre és,
Qual vontade tua tal minha seria,
Tu tão altivo, eu do chão ao rés,
Padre nosso, que diz leis até dez,
Se me corrompe a alma que era pia,
Já troquei teu credo por outras fés.
Belo Horizonte, c.2005.

ASCO

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Tanto asco, repulsa e nojo
Causa-me esta cena vil,
Licenciosa em todo bojo,
Porca assim nunca se viu:

Escrotos pênis pentelhos,
Espírito e corpo à imagem,
Refletem tamanhos espelhos
Cuja fama é desta paragem.

Tais gozos de negra fama
Em geral têm outra parte:
A mais comum é na cama.

Quem o faz assim destarte,
É porque a paixão inflama,
Neste caso quero olhar-te.
Belo Horizonte, 19 de maio de 1995.

ODE AO TEMPO

Ode ao tempo:
Ódio ao tempo;
Oh! dê um tempo,
Ó Deus do tempo.

Odeio o tempo:
Oh! dei um tempo,
Ou dei tempo,
Ou deu tempo.

Ou Deus, ou tempo:
Ou deu a tempo,
Ou deu o tempo.

Ódio, ao tempo?
Ou Deus e tempo?
Ó Deus! e ó tempo!


Belo Horizonte, 5 de maio de 1996.
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Nasci, o parto foi natural. tentaram me educar, hoje eu mesmo tento. fiz o que todo mundo faz, até os 14 anos; como ninguém conta, eu também não. o resto só fui fazer depois de formado. fui educar os outros, nem tive o mesmo sucesso dos que tentaram comigo. de 1961 em diante, queria que os anos tivessem 11 meses, detesto dezembro. plantei árvore, cortaram. escrevi livros, não publicaram. compus uma música, só eu gravei – mas já esqueci a letra. pinto, mas nunca vendi nada. quando estive em paris nevava e chovia; em lisboa, de tarde, arrefecia; roma continuava cheia de romanos – me disseram que os bárbaros tinham tomado a cidade, mas acho que não. sempre que posso esqueço o que ia dizer. só lembro o nome das pessoas quando não preciso. não sei de cor nenhum poema todo. tenho medo de tédio e de solidão.